sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Educação desorganizada e greves: colapso

OBS: Sei que o texto está imenso, mas eu precisava escrever para contextualizar. Está dividido em duas partes, a primeira trata de experiência pessoal, a segunda, pontos de vista sobre as greves, assim o leitor pode escolher qual texto deseja ler. Importante ressaltar que o governo federal atual nunca teve meu apoio nas urnas e que sou a favor de greves bem embasadas e estruturadas.

Sobre a escola: colapso pessoal

pezinhos de um aluninho da tarde


Ano letivo novo. Devido a algumas modificações da Secretaria de Educação passei a trabalhar em uma nova escola no período da tarde.

Escolhi uma por maior facilidade de acesso - embora seja distante - e fui, imaginando que os maiores problemas seriam o pouco recurso e a carência das crianças, o que faz parte. A questão foi além... aparentemente bem conservada, a escola parece um labirinto e não tem sinal. Quando dá o horário, é preciso sair pelos corredores em busca dos pequenos - 1º ano - torcendo para que nenhum fique perdido.

Em outra semana, após um final de semana de chuvas, havia uma lagoa no meio da sala e ainda pingava do teto, e olhe que já não chovia. Apropriado para ler o livro que eu havia levado O sapo Ivan e o sol*, história onde o sapo descobria que o sol nascia de sua mãe sapa!!! :p kkkk... "Vamos arrumar as carteiras em volta da lagoa". E assim fizemos.

A professora da manhã, por algum motivo desconhecido, não se ofereceu para dividir seu armário comigo, mesmo sendo beeem grande e tendo duas portas... como gosto de guardar os materiais para que não se percam ou estraguem na mochila, a solução foi levar de ônibus uma caixa de papelão grande para acomodar meus materiais e dos alunos.

Não entendo por quê, fazendo parte de uma mesma secretaria, algumas escolas tem mais recursos que as outras, talvez por organização da equipe. Minha escola da manhã é excelente nesse sentido, então acabo desenvolvendo um trabalho que chamo de "Robin Hood", levar algum material que falta à tarde da escola da manhã. Fazendo todos parte da mesma rede, imagino então não se tratar de contravenção. Eu acho, kkk.

Apesar do calor e cansaço, os aluninhos tem potencial para se desenvolver bem, o que me motivou a ficar. Por outro lado, episódios de desorganização e injustiça me tiraram do sério. Não vou colocá-los aqui, pois são inúmeros. A questão é que sempre estou disposta a acertar, mas preciso que me deem a direção.

Ontem conversei com a estagiária que fica comigo e com a diretora - a primeira da equipe que me escutou. Falei da minha dificuldade em me adaptar e perguntei se estava fazendo as coisas de modo errado, pois queria acertar. Ambas disseram que gostaram muito do meu jeito de trabalhar, que era produtiva, interessada e carinhosa com as crianças e que não havia o que mudar. Fiquei um pouco mais tranquila. É difícil chegar em um lugar novo, principalmente quando não orientam sobre as regras e procedimentos locais, e depois, ainda cobram! As outras novas que chegaram estão relatando as mesmas dificuldades.

Analisando o que estava sentindo, percebi que as pequenas injustiças foram se acumulando e não estavam causando raiva, e sim mágoa. Desdobramentos da sensibilidade... mais fácil e intenso sentir amor e alegria, mais fácil ficar magoada. Leve colapso pessoal. Hora de acionar a inerente capacidade do ser humano de superação.


Sobre as greves: colapso humano

imagem daqui

Acredito que este é o motivo que tem levado tantas pessoas a aderirem a greves. A questão vai além do financeiro ou da qualidade de vida. As pessoas estão magoadas, sentindo-se desvalorizadas, desrespeitadas em seus direitos e a humanidade está entrando em colapso.

A greve dos caminhoneiros me assusta por provocar desdobramentos perigosos para os seres humanos, que acuados pela falta de produtos, podem suscitar sua porção primitiva e bárbara. Sem falar que estão prejudicando inúmeros outros setores que só desejam trabalhar e gerar seus benefícios, uma quebra no conceito de interdependência.

Sou completamente a favor das reivindicações da classe, pena que o resultado final disso tudo será refletido mais uma vez no bolso do trabalhador. É lamentável a que ponto precisamos chegar.

Aqui também os professores municipais entraram em greve e embora não tenha ido trabalhar - uma forma de apoio às colegas, não aderi por não concordar com as pautas mal esclarecidas e mal argumentadas de reivindicações. Penso que abraçar uma greve precisa ir de encontro ao que se sente como deficitário.

A rede municipal hoje recebe alimento, uniforme e material gratuitamente. As manutenções voltaram a ser executadas e acontecem a passos lentos devido a rombos deixados pela má administração anterior. O salário e elevações estão sendo pagos e os atrasados pagos em parcelas. Tirando remanejamentos absurdos de professores, não vejo motivos nesse momento para greves. Por outro lado, concordo plenamente com a greve do Estado, muito bem embasada e pertinente.

Mas se você não adere a uma greve, na visão do grevista, não concorda com ela. Não é assim. Não acho correto brigar por algo que não vejo como justo, seria hipocrisia, mas a coisa toma uma proporção que infelizmente toma dimensões pessoais, como já falei ---> aqui. As pessoas não querem ouvir sua opinião, querem que você concorde. É simples. Na próxima vez irei concordar com o que dizem, mesmo se eu não for participar. As pessoas não valorizam sinceridade, pois não sabem como lidar com ela.

Eu entraria em uma greve por salas equipadas com recursos tecnológicos - importante, funcionando, porque mandam equipamentos mas não há estrutura para fazê-los funcionar - que de fato capacitariam os alunos a desenvolver um aprendizado de cunho pesquisador, crítico e formativo para o futuro. Por políticas que punissem efetivamente famílias omissas que brigam por questões banais  mas nem pegam o caderno para ver como estão as atividades do filho. Por gestões que fossem de fato democráticas (e não desorganizadas como no exemplo acima, há pessoas que confundem) e não ditadoras, impositivas.

O triste é que para brigarmos por tudo isso, é preciso que a visão do professor mude. Sobre os episódios que relatei lá em cima, alguns que testemunharam disseram "você é boba", "é muito certinha", "tem que pensar mais em você"... então é para ser mais individualista, intolerante e grossa? Estou quase me convencendo que sim.

Acredito que aquele que pensa assim é de amor que esse está precisando, sentir-se acarinhado, valorizado, importante. Não oferecem respeito e compreensão ao governo porque não tem seus direitos respeitados, o problema é que estão punindo as pessoas erradas, e desse jeito a injustiça inevitavelmente torna-se uma bola de neve. Ando aflita com a questão: onde iremos parar?

*A visão lúdica e fantasiosa do Sapo Ivan me encantou. É uma coleção muito interessante para estimular a leitura das crianças, conheça os exemplares aqui.

13 comentários:

  1. Pois é Bia, a educação anda de rastos, porque aos governos não interessa investir nela.
    Um povo culto , é sempre uma lança afiada contra os desmandos dos governantes. Quanto mais inculto é o povo, tanto mais fácil é ludibriá-lo.
    Um abraço e bom fim de semana

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    1. Olá, Elvira! sei há algum tempo que a educação em Portugal não anda muito bem, sendo que há algum tempo atrás havia desenvolvido uma espécie de modelo em educação... uma pena! Povo culto é aquele que briga por seus direitos e isso é possível quando se tem conhecimento profundo deles e primordialmente, do que são os sentimentos de discernimento e respeito. Um abraço!

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  2. Bia, que triste ver tantas coisas como descreveste acontecendo!

    Escolar sem estruturas, professores que pensam que fazer as coisas certas /ou lutar por elas é ser o "joãozinho do passo certo" e assim por diante.

    Torço pra que consigas fazer teu trabalho, aquele que idealizaste com os pequenos e que as greves quando ocorrerem sejam por causas justas de verdade! bja, tudo de bom e lindo fds!

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    1. Olá, Chica! Pois é, o ano nesse sentido começou com novidades, rsrsrs!
      É, qualquer gesto impositivo sem um embasamento claro me parece um esforço vão no sentido de resolver as coisas.
      Eu espero que a greve acabe logo... vínhamos do feriado de Carnaval, novamente será necessário uma retomada, e no final do ano, quando vierem as avaliações formais do governo municipal e federal, ninguém relevará a questão da parada da greve.
      Um abraço!

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  3. Claras e perfeitas análises Bia.Quem é comprometida profissionalmente já experimentou agruras e desilusões similares.Há nós tão antigos e incompreensíveis numa mesma rede que a torna este emaranhado quase insolúvel. Lástima enorme.
    Creio que o conjunto de insatisfações acaba por confundir os objetivos grevistas e causar dubiedade.
    Torço pra que tudo se organize a contento.A classe mais que merece.

    Bjos brava professora,
    Calu

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    1. Oi, Calu!
      Obrigada por seus pontos de vista tão compreensivos em relação ao meus. a postagem teve grande número de acesso em pouco espaço de tempo, porém poucos comentários, o que me faz pensar que grande parte de quem veio até aqui não compreendeu o que eu quis dizer, rsrsrs.
      Você tocou exatamente no ponto que eu considero questionável. Em meio a algumas leis e direitos, o pessoal suscita questões de interesse ou cunho pessoal e usa a bandeira da greve para defendê-los como se fossem coletivos, dispersando os focos. E depois ainda jogam isso como se você tivesse pedido para fazerem por você!
      Também estou torcendo para que as coisas se resolvam logo e para os professores um dia compreendam o que é de fato democracia, direitos e deveres.
      Um abraço

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  4. Bom dia Bia, já tinha lido este texto e só agora pude comentar!
    Sou pela qualidade de ensino com todas as condições necessárias para que tanto os professores como seus alunos possam dar o seu rendimento máximo!
    Greve deve ser o último recurso e só desejo que a Bia vá conseguindo realizar o seu trabalho sem constrangimentos.
    (Aqui tudo anda de rastos também e por vezes reflexe-se na na forma menos elegante de colegas para colegas).

    Grande beijinho.
    Ailime

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    1. Olá, Ailime!
      "Na forma menos elegante de colegas para colegas", kkk, ótima frase! Em dias de Facebook poluído com sarcasmo e acusações a quem não foi ao protesto, uso minha frase preferida: "falo nada, só observo". Entrar na onda de debates infundados não é uma atitude nada elegante.
      Compreendo que temos sim motivos para insatisfações, mas o governo local estava negociando, o que pela lei não abriria motivos para a greve. Mas os professores nem leram a apostilinha com as leis sobre greve, ou o panfleto com as reivindicações com inúmeros erros de português... o professor precisa sobretudo aprender a se informar e não somente se deixar fomentar pelos argumentos alheios para que tenham condições de fato de lutar pelo que lhe é de direito com força e sem motivos para brechas judiciais.
      Um abraço!

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  5. Oi Bia,

    ..."então é para ser mais individualista, intolerante e grossa?" Definitivamente não! Essa não é a professora que conheço e não combina nada contigo. Continue sendo essa professora insatisfeita de modo positivo.
    Confunde-se muito educação com escolarização. Não é raro encontramos pessoas com mestrado, doutorado e extremamente mal-educados. A culpa é de quem? Há pais que pagam os melhores colégios, curso disso e daquilo, carros de presente, mesadas...e esquecem de educar. Quando a desgraça acontece, a culpa recai sobre os ombros largo do professor. A escolarização tem a função de formar um homem pensante e bem preparado para um mundo cada vez mais competitivo. Isso requer bons professores. A educação tem por base uma escala de valores, princípios e ética. Isso requer pais presentes.
    Abraços.

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    1. Ai, Nestor... vou dizer que tem horas que não é fácil! Tem momentos que cansa um bocadinho ser generosa, tolerante e gentil, especialmene por serem posturas pouco valorizadas. Mas acredito que me machucaria mais de agisse contra essa netureza.
      Estou decepcionada com o pensamento das professoras. Convivo e sei que são um pouco limitadas, mas essa greve me fez perceber que são muito mais limitadas do que imaginei, e aqui não só em conteúdo, como também em valores. E isso acaba justificando porque de fato a escolarização não avança e isso não mudará com greves.
      Gostei muito de seu uso de termos "escolarização" e "educação", muito bem definido.
      Um abraço!

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  6. A realidade brasileira infelizmente é triste e desafiadora para os professores e professoras de nosso Brasil..mas que bom, que mesmo diante dos desafios que enfretastes no regime escolar, você tenta fazer e faz sua diferença..Igual diz minha madrinha Ivaney "Não é quebrando o pau que vai resolver alguma coisa" kkkkk..mas vc agiu certa Bia.. Pra reivindicar tem que existir algo bem concreto que faz jus!!! Bjos...Ah, sou novo por aqui. hihi

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    1. Olá, Kleberson. seja bem vindo! Penso que "quebrar o pau" geralmente tira a razão da pessoa, salvo em situações extremas, onde a pessoa não se sente respeitada ou ouvida... e ainda ssim, será que vale a pena estar perto de pessoas com quem se precisa entrar sempre em "combate"? Educação combina com argumentos. Mas apesar de não participar, soube que a greve transcorreu de maneira tranquila, sem episódios de vandalismo, o que só fortalece a classe. Um abraço!

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  7. Olá, Bom dia, Bia
    Ser professor hoje é viver intensamente o seu tempo com consciência e sensibilidade e com a lentidão do governo para melhorar o nível dos professores, os grandes agentes de transformação têm sido os próprios, tanto os problemas estruturais que encontram, que os obrigam à repensar métodos, instrumentos , tecnologias e o relacionamento com os alunos.
    a greve , como todo direito, tem limitações nos parâmetros adequados aos seus fins, porque adviriam conflitos de interesses mais amplos que acabariam por envolver toda a sociedade, "o caso dos caminhoneiros"... e é um fenômeno tipicamente coletivo, não há greve de um indivíduo, porém de uma coletividade, porém acho muito estranho quando tentam impor um colega, sejam quais forem as razões, participar de um movimento grevista, pois o direito da greve, respeita o princípio da razoabilidade,portanto há o direito fundamental da liberdade individual e o o direito de escolha, ...tudo o mais, seria imposições de uns, hipocrisia de outros...
    Feliz Dia Internacional da Mulher, belo domingo, belos dias, beijos!

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