segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Alimentação compartilhada

Às margens do Rio Guaíba, perto de Porto Alegre, está a Ilha das Flores, um lugar para onde vai o lixo, onde um tratador de porcos tem prioridade na distribuição de alimentos jogados fora para seus animais antes de família carentes.

No Brasil toneladas de alimentos são descartados todos os dias. A Anvisa determina que alimentos preparados em restaurantes não podem ser aproveitados para preservar a saúde do consumidor. Dessa forma, precisam descartar todo o alimento que sobra, mesmo que estejam nas panelas, em perfeitas condições. Comprovo isso porque trabalhei em um estabelecimento onde havia restaurante e fiquei abismada com a quantidade de comida boa descartada todo dia.


o vídeo mostra o desperdício em números


Por outro lado, atitudes que vão na contramão merecem destaque. Em Portugal, o Programa Zero Desperdício (vídeo acima) encaminha todos os dias refeições a famílias carentes que seriam jogadas no lixo. De acordo com o programa, "O movimento está a aproveitar os bens alimentares que antes acabavam no lixo – comida que nunca saiu da cozinha, comida cujo prazo de validade se aproxima do fim, ou comida que não foi exposta nem esteve em contacto com o público – fazendo-os chegar a pessoas que dela necessitam."

Os estabelecimentos participantes - restaurantes, hipermercados e hotéis - recebem um selo de identificação onde os clientes podem ter a certeza de que ali não haverá desperdício. Não se trata de reaproveitamento de alimento servido, mas daqueles que ficam na cozinha e não são utilizados no dia. Até hoje já foram distribuídas mais de 2 milhões de refeições.

Outras iniciativas lusas que merecem destaque são o  Projeto Fruta Feia, onde hortifrutis descartados pelo aspecto inoportuno para venda viram cestas alimentares distribuída a uma rede de cadastrados; Refood, ao mesmo estilo do Zero Desperdício e "Menos estômago que barriga", recolhimento de alimentos que sobram das cantinas de universidades e vão para cantinas sociais.

Penso que no Brasil ainda pesam duas vertentes culturais errôneas que colaboram para que o cenário não se modifique: o interesse comercial em lucrar a qualquer preço e sufocar iniciativas de combate  ao desperdício e pessoas que se prevalecem de programas de ajuda para limitarem suas vidas à dependência do sustento dos outros.

Enquanto isso, pessoas de bem que não estão tendo oportunidade sofrem com fome e pagam o preço de uma sociedade desigual. Mais uma realidade não só brasileira, como também mundial, que eu gostaria muito de ver transformada e que só depende de boas iniciativas e ações contundentes.

Faço o possível para desperdiçar o mínimo de alimentos e costumo fazer muitas receitas com reaproveitamento. A minha preferida está ---> aqui, meu imbatível Risoto de Frango feito com sobras de frango assado desfiado! E você, tem alguma dica de reaproveitamento ou sabe de algum programa de coleta e  redistribuição alimentar para deixar aqui?


Clique ---> aqui para ver reportagem exibida no Programa Como Será sobre o Refood com uma receitinha.


15 comentários:

  1. Pois é
    Ótimas, simples, possíveis e tão transformadoras essas iniciativas lusas

    As feiras populares são um horror de desperdício e lá muitos passam, passaram e vêem demais passar necessidades
    Falta modos sabe
    Falta consciência
    Falta aquela coisa antiga, de avós de transformar o resto de feijão em sopa e de arroz em bolinhos
    De se servir aos poucos e não deixar nada no prato
    Meu discurso aqui para os da casa e visitas é famoso, tem tanta gente passando fome é frase certa para caras feias e restos
    Além da minha história de dividir uma bala com meu irmão pois o dinheiro só dava para uma bala
    Então se tá mole o bombom põe na geladeira
    Se deu formiga dá uma batida e põe pra dentro
    Leva pra casa de mãe ou irmãos o que comprou demais, ganhou e não gosta
    Leva na rua pra um mendigo o resto da geladeira, do restaurante

    Tanto a se fazer individualmente e coletivamente
    Tanta gente sem ter nada, nada, nada para comer

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    1. Olá, Tina! Você usou uma palavrinha chave, iniciativas possíveis!
      Ainda ontem transformei o feijão em sopa, rsrsrs... minha filha por anos torceu o nariz (sem experimentar, claro) e hoje pede para eu fazer a bendita de tanto que gosta, rsrsrs! Coisa de avó, mesmo! A minha era mestra em economia doméstica!
      Todas as atitudes que citou me são bem familiares. Uma das coisas que mais me entristece é gente torcendo o nariz para comida. Tenho uma colega de trabalho assim, torce o nariz para tudo, menos para porcarias (salgadinhos, bolacha recheada...). Além da educação de dar valor para a comida no prato, também tive dias de escassez, de dormir com a barriga roncando, então dá mais indignação ainda imaginar quantas pessoas passam por isso todos os dias sabendo que não precisaria ser assim.
      Sei que um projeto está há anos na câmara para liberar restaurantes de multas caso algum alimento doado cause problemas aos consumidores, como é em Portugal, mas é impressionante como esse tipo de projeto fica sempre em último plano! É como eu disse, se não há lucro, para que priorizar? Abraços!

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  2. O desperdício sempre me incomodou,Bia! Aqui em casa nada é desperdiçado, até porque faço nas quantidades necessárias apenas. E tenso freezer, nada se perde, tudo se transforma...

    Abomino o desperdício nos pratos, nos buffets ,aqueles que enchem o prato e depois deixam a metade... E também as políticas daqui em relação a isso. Parabéns para Portugal com essa bela iniciativa. Valeu! bjs, chica, linda semana!

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    1. Olá, Chica! Também tenho tino para quantidade, costumo fazer de forma que todos comam bem sem grande desperdício. Minha mãe sempre teve o costume de fazer comida em excesso, segundo ela uma compensação da época de infância onde a alimentação era restrita, mas sempre me doeu o restante indo para o lixo.
      Sei que há restaurantes que cobram uma multa sobre a comida deixada no prato em buffets. Claro que às vezes pegamos algo que não está bom, ou não é o que pensamos, natural que fique no prato, mas isso não pode ser um hábito. Não sou a favor de ensinar cobrando multas, mas reconheço que infelizmente nosso povo tem mais esse mau hábito cultural, de não aprender por conscientização, e sim somente quando dói no bolso.
      Abraços!

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  3. Muito bom Bia! Outra questão é a busca pelo alimento perfeito né, o pessoal enfia a unha nos mamões que apodrecem rapidamente! pode-se usar outra técnica de observação né! abração

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    1. Olá, Ives, é verdade! Os métodos para experimentar frutas e verduras acabam gerando desperdício, tem razão. Quebrar a pontinha do quiabo para ver se está no ponto é outro exemplo. Abraços!

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  4. Oi Bia!
    É muito triste ver tanto desperdício nos estabelecimentos e mesmo dentro das casas. Como disse a Tina, emendando com o que você já falou da sabedoria dos avós, está faltando o saber reaproveitar em casa.
    E essa ganância pelo lucro certamente limitam iniciativas.
    Mas tem uma iniciativa muito boa e eu já vi o "caminhãozinho" deles coletando alimentos, que é o Mesa Brasil.
    Deixo o link para você espiar:

    http://www.sesc.com.br/portal/Assistencia/Mesa+Brasil+Sesc/

    Beijo!

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    1. Olá, Ana!
      Talvez a ausência do hábito do reaproveitamento venha dessa nova sociedade fast food que privilegia tudo que é rápido e pronto!
      O Sesc tem inúmeras boas iniciativas e está aí mais uma que eu não conhecia! Sem dúvida uma instituição com projetos consistentes de auxílio popular que em muitos locais não é conhecido nem valorizado.
      Obrigada pela partilha do link!Abraços!

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  5. Há muito desperdício no Brasil. Sempre me incomodou essa questão dos restaurantes jogarem tudo fora, com tanta gente passando fome. Em casa, tudo é feito é pequenas quantidades, para não estragar, já que não teria a quem doar. Em todos lugares onde vamos, presenciamos cenas que não deveriam ocorrer, como nas feiras. Minha mãe reaproveitava tudo e creio que nos deu um grande exemplo. Bjs.

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    1. Olá, Marilene!
      Aqui também faço em poucas quantidades, pois sempre prefiro o sabor da comida fresquinha, rsrsrs, e congelo as sobras que sei que dá para aproveitar. Risotos, fritadas e molhos para massa são ótimos meios de reutilização.
      O que me deixa mais triste ´quando vejo alguém desdenhando de comida... não somos obrigados a gostar de tudo, mas respeito a quem fez e a quem não tem é fundamental.
      Abraços!

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  6. Boa noite Bia, muito obrigada por ter destacado aqui meu País que já há bastante tempo está adoptando essa atitude contra o desperdício ajudando quem necessita. E aqui mesmo onde resido - próximo de Sintra (Lisboa) posso testemunhar sobre restaurantes que oferecem diáriamente toda a comida intacta para as famílias carenciadas da localidade registadas no serviço social da igreja.
    Um beijinho.
    Ailime
    (Sou contra o desperdicio e também faço alguns pratos com sobras. Com frango podemos fazer tb uma derivação de bacalhau à brás. Fica optimo.)

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    1. Olá, Ailime!
      Achei muito interessante a iniciativa de seu país de otimizar as leis de forma a dar abertura para esse tipo de iniciativa! Gosto muito de bacalhau e nunca pensei em substituí-lo por sobras de frango nesse prato, deve ficar uma delícia!!! Me deu água na boca!!!
      Valeu pela dica, abraços!

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  7. Desperdício é triste e essa postagem é de extrema importância, Bia. Outro dia fui ao Mc Donalds e doeu minha alma ver um atendente jogando um sanduíche inteiro no lixo só pq a cliente disse que o dela era sem molho. E pior que deve ser ordem da empresa. Deveria ser crime isso. bjs e boa semana.

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    1. OIá, Sérgio! É mesmo lamentável... acho que nem funcionário pode consumir o lanche descartado. Como tantos outros conceitos há urgência em mudanças com impacto social. Abraços!

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  8. Olá amiga!
    Passando para deixar o meu abraço desejar um feriadão feliz e de muita paz e rever suas postagens sempre maravilhosas. verdade amiga, sempre eduquei minhas filhas mostrando o valor dos nossos alimentos e mesmo quando não estão agradando o paladar de todos, devemos lembrar que muitas criatura saciariam a fome ficariam felizes com as nossas sobras.
    Abraços, fica na paz de Deus.
    Lourdes Duarte
    http://filosofandonavidaproflourdes.blogspot.com.br/

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