domingo, 25 de setembro de 2016

Visitando o valor histórico

Essa semana participei da inauguração de um conservatório - espaço para o ensino da arte musical. Infelizmente a população local não dá muito valor para iniciativas culturais, quem sabe isso muda um dia.

tenor vanderlem - imagem tibileti

Apesar de não apreciar eventos de cunho político minha filha insistiu que eu fosse - ela ajudou na organização do evento - pois conhece minha veia musical e afirmou que eu iria gostar. De fato, a cerimônia foi muito agradável, com pouquíssimos discursos e muita música, alegria, comes e bebes.


salão do coquetel - notem os afrescos em forma de parreiras nas paredes. imagem tibileti

Ela também sabia que eu sempre tive vontade de conhecer a construção, minha cidade tem várias casas históricas por ter 366 anos. Essa edificação fica em frente de onde meu avô morava e quando eu ajudava a cuidar dele já no final da vida muitas vezes tive vontade de entrar - na época, estava abandonada.


imagem tibileti

Cada sala, voltada para uma habilidade musical, ganhou uma placa comemorativa homenageando alguém que fez parte da história da cidade.

imagem da bia

A casa fica em uma esquina, essa sala é para corais, no chão tem aquelas estruturas em forma de degrau. Notem a beleza do pé direito e das janelas que garantiam ótima ventilação. Já no corredor a beleza do lustre de cristal denota a elegância característica da época. Em alguns cômodos há mobiliários como mesas e cadeiras restaurados e originais, tudo em linhas retas e simples, com estofamento em vermelho.

imagem da bia

Como podem ver minha incursão foi primordialmente histórica. Apesar de apreciar simplicidade na decoração, também gosto de apreciar o capricho dos entalhes de época, imaginar as pessoas que viveram ou passaram por ali, suas histórias, dores e alegrias, festas e partilhas, as roupas que usavam, os pratos que saborevam. 

sala de piano com espelho - imagem da bia

O jardim é uma obra à parte: construído sobre sua base original, com canteiros em forma de liras, ganhou pedras e gramas que crescem vagarosamente por exigirem baixa manutenção. Fiquei imaginando que lindeza deveria ser em outros tempos, com os canteiros adornados com flores. :)

jardim lindo!!!! imagem da bia

imagem da bia

Ontem fiquei curiosa sobre a história da casa e resolvi pesquisar. Restaurada há alguns anos, pertenceu a uma tradicional família local, sendo que de 1932 a 1970 pertenceu a Elfrida Lobo após o casamento com o proprietário do casarão. Um almoço nessa casa foi oferecido na ocasião. Teve três filhos e ficou viúva aos 34 anos, com a partida precoce do seu marido com 36.

varanda da casa e obra de artista local mostrando a fachada da casa - imagem da bia

Elfrida foi uma senhora espetacular, ativa, trabalhando como professora, formando os filhos e atuando em iniciativas inclusive filantrópicas. Publicou um livro chamado "Retalhos de uma vida" em 1990, um ano antes de falecer.


Elfrida aos 17 anos

Ainda que de longe, rsrsrs, me identifiquei com a história da antiga moradora. Conhecida por sua personalidade vibrante, o que se percebe na construção restaurada pontuada com cores frescas como verde menta e salmão, e afrescos pintados à mão, Elfrida aparece sempre sorrindo em suas fotos. Nem sempre o que vemos em imagens corresponde a uma vida feliz e tranquila - o que contradiz sua história de luta e perda, mas sem dúvida ilustra a forma como ela escolheu viver: com confiança, força, alegria e coração generoso.

Considero sempre doloroso quando vejo destruídos ou abandonados patrimônios antigos - tantos podem guardar histórias interessantes como essa, que jamais serão recuperadas. Você já se interessou em conhecer algum de sua região?


fonte histórica e última imagem ---> aqui 

20 comentários:

  1. Bia, que bom que concordaste em ir! belo evento e te proporcionou lindas fotos e olhares maravilhosos! Adorei os frescos e lustres. O jardim, um show! Valeu muito! Obrigadão pelos carinhos, linda semana! bjs, tudo de bom,chica

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    1. Olá, Chica!
      Tem razão, eu sou aquele tipo de pessoa que pode até resistir inicialmente, mas se vou, entro na onda e aproveito, rsrsrs. E sempre acho fantásticas essas incursões no passado, tudo muito bonito, elegante... e ao mesmo tempo, simples. Como a vida deve ser, rsrsrs. Abraços!

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  2. OI BIA!
    EM PRIMEIRO LUGAR TE DIZER QUE ENFIM, O LIVRO CHEGOU O QUE NOVAMENTE TE AGRADEÇO. JÁ LI ALGUNS TEXTOS, QUE ALIÁS SÃO ÓTIMOS O QUE NÃO ME SURPREENDEU POIS, CONHEÇO TEU TRABALHO E TE ACOMPANHO PORQUE REALMENTE GOSTO DE TEU JEITO DE ESCREVER.
    QUANTO A TUA POSTAGEM, SABE BIA QUE GOSTO DE ANDAR PELA CIDADE, NA PARTE CENTRAL, PRINCIPALMENTE, PORQUE AS CONSTRUÇÕES SÃO MAIS ANTIGAS E AS OLHO PENSANDO EM QUEM ALI VIVEU, PROCURO VER AS MAÇANETAS DAS PORTAS, ENFIM, ACHO QUE TENHO UM FASCÍNIO POR ELAS, KKKK E LENDO TEU TEXTO PUDE VER QUE TAMBÉM MECHEM CONTIGO, ACHEI MUITO LEGAL ISSO.
    ABRÇS E OBRIGADA.

    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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    1. Olá, Zilani!
      Que bom que o livro chegou, e que você gostou! Obrigada por seus elogios! :D Também recebi um de presente da Rita, acabei esquecendo de acrescentar na postagem, farei isso amanhã.
      Eu também gosto de caminhar e observar como você... ler o que escreveu me fez lembrar quando estive no Rio, e andava olhando para cima na região da Lapa e de Copacabana, rsrsrs, tinham prédios antigos com detalhes lindos!!! Eu observo portas e janelas, mas essa de observar maçanetas é nova para mim, hahaha, vixi, acabou de me despertar mais um toc! kkkkk
      Abraços!

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  3. Boa noite Bia,
    Fez muito bem em assistir ao evento organizado pela sua filha. Já viu quantas coisas lindas viu e ouviu? E que orgulho, não?))!
    O palacete é muito lindo, com salas amplas e decoração leve! Um ambiente óptimo para Conservatório de Música! O jardim original e muito belo também.
    Muitos edifícios de Lisboa e talvez outras cidades portuguesas têm salões semelhantes e que muitas vezes são ou deveriam ser aproveitados para fins culturais. Há uma tendência em todo o nosso Pais para recuperar o que está abandonado e tenha historia.
    Sou pela recuperação e graças a Deus que os municípios cada vez mais apostam nessas recuperações. Ainda hoje também quando visito algum palacete (o ultimo foi com Rosélia em Sintra, viu as fotos que ela tem publicado?- Espiritual Viagem-) e sempre imagino como seriam os moradores e a sorte que tinham em viver em paraísos assim;))!
    Relacionando ainda com o post anterior antigamente, claro, quem tinha posses para tal levaria uma vida muito tranquila com jardins a rodear os casarões...Não ligue hoje sou eu que estou a divagar.
    Gostei imenso deste seu post.
    Beijinhos e boa semana.
    Ailime

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    1. Olá, Ailime!
      Sim, realmente minha filha é muito responsável no trabalho e isso é sem dúvida um orgulho.
      Também achei curioso o tema do jardim original casar tão bem coma ideia do conservatório! É uma casa leve, um ambiente que parece ter sido muito feliz em outros tempos.
      Acompanho pelos blogs as fotos das construções históricas de Portugal e nunca canso de elogiar a beleza! É bom saber do empenho em recuperar a história local... é sobre a história de onde vivemos que construiremos a nossa também.
      Gosto muito quando divaga, rsrsrs... penso que o ritmo de antigamente era mais ameno, pois mesmo nesse casarão era visível o quanto eram menos capitalistas. Ler o que escreveu me fez lembrar da cena que todos que conheceram minha avó materna contam que a marcava (não a conheci, faleceu antes): ficava na janela da casa de pé direito alto chupando uma laranja e convidando os conhecidos que passavam a entrar para fazer o mesmo e conversarem um pouco, rsrsrs. Tinha um coração de ouro.
      Abraços!

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  4. Oi Bia!
    Que lugar lindo. Com certeza vc ia se arrepender caso não aceitasse o convite da sua filha kkkkk
    Pela foto a Elfrida parece uma mulher frágil, mas pela história demonstra ter sido uma grande mulher!
    Bjsss amiga e uma semana de sucesso e abençoada /vcs

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    1. Olá, Dinha!
      É verdade, por esse motivo geralmente aceito, rsrsrs, especialmente se é um evento com temática que me atrai.
      A aparência de uma pessoa não ilustra a fortaleza ou a fragilidade que carrega por dentro, não é mesmo? :) Assim era Elfrida, que até no nome já mostrava personalidade.
      Abraços!

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  5. Bia, boa noite!
    Curti muito o passeio através do seu olhar...Gosto muito destes casarões e palacetes. Na parte antiga de Belém (cidade onde nasci) tem uns bem conservados, a maioria nem tanto, a biblioteca pública é secular, ficava horas fascinada olhando para o alto, as colunas, janelões, madeira, mármore. Realmente essas construções devem ter histórias surpreendentes.
    No Tocantins temos uma cidade histórica chamada Natividade, conheci as histórias de algumas, visitei até porões, que eram usados para os donos da casa e escravos se esconderem em caso de perigo.
    Amei a postagem!
    Tenha uma ótima semana! Bjoooooo

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    1. Olá, Bia!
      A história que contou de Tocantis me fez lembrar uma que ouvimos muito aqui, da ligação subterrânea de três construções, Fontinha Velha, Museu (antigo colégio jesuíta), e Igreja da Ordem, segundo as histórias, essas passagens eram usados por escravos e jesuítas em épocas de perseguição para fugas.
      Essa riqueza cultural jamais deve ser desvalorizada, sem falar na aura de beleza e mistério que muitas dessas histórias e construções trazem consigo! Abraços!

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  6. Um bom aproveitamento da casa. Onde quer que D. Elfrida se encontre deve estar contente por ver sua antiga casa assim transformada.
    Fico sempre muito triste quando vejo semi destruídos e ao abandono antigos palacetes.
    Um abraço

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    1. Olá, Elvira, tem razão, creio que de onde estiverem os proprietários devem ter orgulho de verem seu espaço bem cuidado e voltado para a arte! Gostaria muito que as pessoas tivessem a consciência do quanto é importante preservar monumentos pois guardam mais do que beleza arquitetônica. Abraços!

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  7. Olá, Bia.

    Arte, cultura e educação nunca são demais, entesouram o patrimônio da alma e vacinam contra a mediocridade.

    Um abração.

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    1. Olá, Apon!
      É verdade, dessa vacina a população está precisando ser vacinada em massa, rsrsrs, infelizmente a mediocridade tem sido uma tendência que a cada diz mais infantiliza e empobrece o ser humano. As pessoas andam perdendo a capacidade de apreciar/absorver o belo e assim, alimentar a alma.
      Abraços!

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  8. Bia,
    Com certeza uma cidade contando tantos anos há algo a mostrar.
    O jardim é muito curioso, motivado pela cultura.
    Bjs

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    1. Olá, Sissym, quando vi o jardim pensei que tinha sido construído de acordo com o tema da nova função predial, mas quando minha filha contou que já fazia parte do lugar, fiquei encantada e me fez pensar no quanto a família que esteve ali deveria ser especial.
      Deixa eu lhe contar, fui roubada na segunda e na minha bolsa estava aquela ecobag do Rio que você me mandou certa vez, eu usava sempre para levar minhas encomendas par ao Correio. Fiquei bem triste, ainda mais por ter sido um presente seu! =/
      Abraços!

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  9. Que casa maravilhosa, Bia! Fiquei impressionado! Ainda bem que conservaram. Derrubar isso seria um crime. E arte e cultura são sempre necessários, ainda mais nesse país... bjão

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    1. Olá, Sérgio, acabei não fotografando a parte externa, que também é linda!!! Espero muito que conservem e aproveitem os eventos e aulas musicais oferecidas ali, como seria bom para a população local se entendessem o quanto arte e cultura fazem bem! O pessoal daqui perde muito tempo cuidando da vida e falando dos outros, rsrrs. Abraços!

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  10. Olá,boa noite Bia...sim, "tudo in-riba" comigo.Confesso que só fui uma vez em um conservatório.Percebe - se pelas fotos o capricho dos entalhes de época e riqueza de detalhes , mui belas ! E verdadeiramente o jardim é uma obra de arte e à parte. Sim, penso também, que cada uma destas "construções" antigas deve carregar uma história valiosa , que muitas vezes passa nos despercebida no correr dos dias e que somente mediante pesquisa, podemos conhecer uma história tão rica como a da Elfrida Lobo e algumas de suas qualidades : confiança, força, alegria e coração generoso. Trabalhei na Av.Paulista em Sampa, e ainda com vários casarões,cada uma com sua história. E aqui em Santos, temos o Centro Histórico de Santos , um dos + valioso acervo histórico do país,com seus inúmeros casarões e como disse acima,muitas vezes a história de cada um passa nos despercebido no correr dos dias e não tive a oportunidade de me aprofundar, como vc bem fez , conforme esta postagem!
    Belos dias,abraços!

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    1. Olá, Felis!
      Essa também foi a primeira vez que estive em um conservatório. A cultura local ainda está atrasada na valorização cultural e quando esse tipo de construção é feito em geral logo acaba esquecida, o que é uma pena.
      Senti falta no discurso de comentarem um pouco sobre o passado do local e por esse motivo pesquisei em casa, creio que conhecer a história torna tudo muito mais interessante.
      Passei rapidamente por São Paulo e não conheço Santos, mas gostei da dica, se um dia tiver a oportunidade de visitar um dos dois lugares darei uma boa observada com certeza. Outro lugar recheado de história é Minas, as pequenas cidades tem construções e esculturas incríveis, além de sempre ter algum guia para contar um pouco sobre tudo!
      Abraços!

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