sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Uma educação para a limitação




Como já comentei anteriormente, de acordo com as novas teorias comprovadas cientificamente, tudo tem algum grau de  consciência: objetos, pedras, plantas, animais, não somente, humanos.

Os budistas já sabiam disso. Em sua tradição milenar, quando encontram pedras no caminho, costumam trocá-las de lugar quando é possível para ajudar na expansão de consciência da pedra, uma vez que movimentar o conhecimento e a experiência propicia essa expansão. Trocando de lugar, nova experiência.

Há alguns dias assisti esse vídeo, que expressa tudo o que eu penso e sinto em relação à nossa educação. Como sabem sou professora em um período e confesso que um dos fatores que mais me incomoda é que o nosso modelo de ensino não promove autonomia e não valoriza a subjetividade de cada um. Os séculos passam, trocam livro quase anualmente, a cada dois ou três anos muda o modelo de ensino, mas continuamos formando seres moldados para obedecer e seguir o padrão, especialmente no Brasil.

O impacto é uma sociedade condicionada, como Jout diz, a agir sob medo, sob pressão. Aquilo que não é imposto, cobrado, não é realizado, fica em segundo plano, em todos os aspectos da vida - profissão, relacionamento, saúde, felicidade. Por outro lado, há sempre uma insatisfação crônica nos indivíduos preenchidas com interesses pouco construtivos como televisão, consumo, vícios, vida alheia... cada um aprendeu a se desconectar dos seus dons, a corresponder a expectativas para "tirar 10", a se culpar e se envergonhar quando erra ao invés de aprender a fazer do erro um degrau para o acerto, somente.

Como sou professora do pré ainda tenho um certo grau de autonomia por não precisar cobrar resultados e procuro respeitar o tempo e a aptidão de cada um, claro, sempre colocando regras para que haja aprendizado porque seria impossível administrar 25 crianças de 4 anos por 4 horas sem regras, kkkkkkkk! O curioso é que mesmo sem pressão os alunos costumam realizar as atividades e muitos o fazem com genuíno prazer.

O cenário acaba no primeiro ano, quando começa a pressão por resultados, e o estudo começa a ficar desinteressante, os problemas de indisciplina e agressividade crescem por conta do desinteresse, a raiva cresce por ter que estar na escola, o aluno cresce e vira um adulto com raiva de trabalhar mas com a estima baixa demais para confiar em suas potencialidades. Uma pena!

Esses fatores me desmotivam a dar aula porque uma mudança dependeria de uma transformação sócio-cultural: professores, diretores, secretarias, pais de aluno, psicopedagogos, e como essa transformação precisaria acontecer em cada indivíduo - leis e materiais novos não mudam ninguém - as perspectivas são desanimadoras. Com isso o Brasil tende a continuar dentro da sua limitação financeira e política - como cobrar mudanças se formamos os mesmos alunos? Por exemplo, na matriz curricular da formação pedagógica seria imprescindível a formação em mitos e arquétipos para que o professor pudesse identificar e extrair o melhor de cada aluno,

Estive em um aniversário onde as professoras que estavam me perguntaram se eu faria o concurso para pegar um segundo padrão. Quando eu disse que não, ouvi uns segundos de silêncio e vi olhos arregalados me observando. Então outra professora comentou sobre uma vaga em outra instituição. Eu disse que não tinha interesse em trabalhar outro período como professora, pois ganhava mais trabalhando como autônoma, além de estar em casa e sofrer menor estresse. Ficaram me olhando como se eu fosse um ET, kkkkkkk!!!! Ilustra bem o modelo de pensamento da nossa sociedade - quem trocaria a estabilidade de um salário fixo de concursada por um serviço autônomo que depende sobretudo de nós mesmos? Mas como diz Jout, não fomos preparados para isso e realmente, se a pessoa não estiver muito certa de que é capaz, o negócio não vai adiante.

Eu realmente almejo um dia conseguir olhar para nossa educação e ver que pais, professores, órgãos educadores, sejam como budistas em relação às nossas crianças e adolescentes, promovendo sua expansão, e não as mantendo estacadas no mesmo modelo social.


22 comentários:

  1. Oi Vane (Bia)
    Achei o vídeo sensacional, muito bom mesmo p/gente refletir sobre o que somos e o que nos fazem ser. Amei!
    Bjsssss e um Carnaval de paz p/vcs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Dinha, como vai? Esse é um dos melhores vídeos que já vi sobre a dificuldade que as pessoas tem de proteger sua habilidades e interesses por não terem aprendido a valorizar seus dons.
      Com seu jeito descolado de falar Jout arrasa! Abraços, bom feriado!

      Excluir
  2. Adorei a história e ensinamento sobre a pedra e mudança de lugar pra expansão.

    Tens razao: tudo e todos parecem engessado em ideias ultrapassadas em educação entre outras coisas. Ser a um dia chegaremos a ver as mudanças?? ?

    Bjs e lindo feriadão ou descanso! Chica

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Chica!
      Sabe, enquanto escrevia esse texto lembrava de que você sempre comenta não ter exercido a advogacia, sua formação, pela decepção de perceber que a justiça não é justa, e sim manipulatória. Infelizmente as pessoas que identificam as falhas substanciais nos sistemas - e não se rendem à elas - são minorias, o que diminui muito a chance de mudança próxima.
      Mas... quem sabe?
      Abraços!

      Excluir
  3. Educação, Vane? Isso existe no Brasil? Aqui, quanto mais muda, mais fica desigual. Tudo para atender aos mais escusos interesses, perpetuar a ignorância e manter a massa no cabresto da dita esquerda ou a maldita direita, o algoz da vez a serviço de "forças ocultas" que desservem e se servem do país.

    Um abraço e um feliz carnaval.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Apon, é verdade. Vale lembrar que a ignorância só permanece porque as pessoas dispõe-se a se render a ela. Em nossa atual realidade a grande maioria das pessoas tem acesso a vasta informação de qualidade gratuitamente, escolher se alimentar de informações produtivas é uma decisão pessoal, e se as pessoas escolhem manter o foco no mesmo tipo de informações improdutivas, estão indiretamente decidindo que tudo permaneça na mesma.
      Abraços!

      Excluir
  4. Respostas
    1. Oi, Francisco, muito bom mesmo, e verdadeiro! Grande abraço!

      Excluir
  5. Em essência, a sociedade moderna gosta de propagandear uma vida perfeita, apenas atribuindo às “coisas” como salários e prestígios e a permanência em sua zona de conforto. Isso, por consequência, deixamos de retornar ao que é básico, do que aprendemos com os nossos avós sobre 'movimentar o conhecimento e a experiência, o que -tb acredito- propicia essa troca de lugar e uma nova experiência; que seu 'almejar'seja realizado; agradeço pelo carinho,Vane,belos dias, abraços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Exclui minha resposta sem querer kkkk, vou tentar escrever de novo: seu comentário me fez lembrar as brincadeiras e conversas tão produtivas que tínhamos com nossos avós, de fato, lembra a relação dos budistas com as pedras.
      Um ser humano Feliz e realizado, que ama suas potencialidades essenciais independente da condição social e financeira, produz um campo vibracional que naturalmente gera impactos positivos em seu entorno só com sua presença, mas isso não é ensinado nos livros de escola nem estimulado socialmente. Abraços!

      Excluir
  6. Olha, somos colegas, só que eu de adolescentes.
    A educação é muito estandardizada.
    Gostei da sua reflexão.
    Bom domingo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Elisabete. Sim, é um padrão no qual as pessoas são obrigadas a se enquadrar se deixando de lado, o que torna raro encontrar quem esteja preparado para sair do padrão através de sua autonomia, propiciando a retomada do poder pessoal .Abraços!

      Excluir
  7. Boa tarde Vane,
    Como vai?
    O tema educação é bem desafiante e nos tempos que correm é uma verdadeira aventura para professores, pais e alunos.
    Aí como aqui é pena os programas estarem sempre a mudar, porque os alunos acabam por se baralhar e devem sentir-se muito limitados e confusos.
    Quanto a exercer funções num ambiente sadio e onde haja justiça será bem diferente do que exercê-las onde haja pressão e por vezes tendo de abdicar da nossa própria personalidade ou quando sob stress agir como robôs. Nada como a Vane que tem outras ocupações em que além das vantagens financeiras é mais livre.
    Beijinhos e boa quarta.
    Ailime

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Ailime!
      Interessante sua perspectiva... sim, as mudanças constantes embaralham os alunos. Percebo que há alguns fatores: Por um lado é bom que os programas mudem, afinal, as pessoas mudam, o contexto cultural, social e tecnológico também... porém penso haver um problema de velocidade. Os professores demoram a aceitar mudanças, e quando essas começam a engrenar, muda de novo porque o programa anterior não deu o resultado esperado, simplesmente porque não teve tempo para maturação, digamos assim. Plantam-se as sementes, mas não se dá tempo para colher os frutos.
      Admito que definiu muito bem, tenho certa restrição a tudo o que torna o ser limitado, especialmente se for por uma questão de obrigação, imposição ou pressão. Levar alguém a abrir mão da própria personalidade, a meu ver, parece-me uma espécie de violência muito sutil e cruel e não me agrada perceber fazer parte disso.
      Penso ter me compreendido muito bem... certamente foi essa opção que me fez optar por atividades mais livres. Trabalho mais do que muitas pessoas com emprego e horário fixo, mas sim, conservo uma dose saudável para liberdade de expressão.
      Adorei ter vindo aqui, acrescentou muito!
      Abraços!

      Excluir
  8. Vane
    Muito interessante o ensinamento da pedra . Eu já fui muito ligada em pedras, trazia para casa, acarinhava, dialogava. Eram minhas companheiras. Agora estou na fase dos galhos e troncos secos, rs Acho que é a idade mesmo. Decoro a casa com eles. Vou até mostrar num post . Só não sei nada a respeito dessa representação dos troncos . Mas entendi o que disse sobre a educação e nos mostrou num vídeo bem humorado . Entra ano e sai ano, as ideias permanecem as mesmas num velho e batido ritmo de estudos enfadonhos , desgastantes e nem sempre ideais. Mas qual a resposta? Qual solução ? Dei aula alguns anos e depois que fiz faculdade não lecionei . Fui parar numa feirinha e numa escola de vida altamente eficaz para mim. Não troco esse meu atual trabalho por outro. Mas como o vídeo fala, não tenho muitos projetos . Aliás nem quero muitos. Quero fazer um e que ele de certo.

    bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Zizi!!!
      Eu gosto de pedras, em rios, em paredes, em fontes... estou namorando há um tempo um curso complementar de mandalas que ensina a pintá-las em pedras redondas, trabalho artesanal lindo!!!
      Galhos e troncos secos? Também gosto muito! :)
      É, eu realmente admiro aqueles com um dom inerente para dar aula formal. Eu gosto muito de ensinar, mas a questão de precisar se enquadrar em um modelo robotizado me incomoda, como talvez a tenha incomodado quando se formou. Sempre digo que em alguma existência devo ter sido um pássaro ou uma borboleta, rsrsrsr!
      "Fui parar numa feirinha e numa escola de vida altamente eficaz para mim. Não troco esse meu atual trabalho por outro." Interessante depoimento! Não importa a função exercida ou a renda gerada, importa a alegria que a atividade que desempenhada traz ao coração. Há quem ganhe rios de dinheiro em grandes empresas e tenha sempre um sorriso no rosto, e outros na mesma situação tristes e amargos; Há quem viva feliz em sua feirinha, como você, e há quem o faça maldizendo a vida. Não é o que se faz, mas fazer o que traz essa satisfação interior que não se troca por nada. Ou seja, finalizou muito bem: não é a quantidade de projetos, mas fazer com deem certo, e dar certo significa trazer realização.
      Adorei sua contribuição! Graaande abraço!

      Excluir
  9. Muito interessante o vídeo.
    Realmente a educação como é em Portugal e suponho que no Brasil não é muito apelativa nem para alunos nem para professores. Nesse aspeto penso que a Finlândia está a dar ao mundo uma lição de como se faz educação.
    Abraço e boa semana

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Elvira. Interessante citar a Finlândia, darei uma pesquisada. Há dois pontos que considero chaves: 1, não se promove as habilidades pessoais de cada um, e sim se estimula profissões socialmente elitizadas, como se as outras não fossem importantes, ou a estabilidade dos concursos. 2, não se estimula o empreendedorismo, os alunos são ensinados a obedecer, sendo que é comprovado por pesquisas que mais de 95% das pessoas que enriqueceram, o fizeram através de empreendedorismo (especialmente quando investiram em algo que gostavam de fazer), pois como empregado chega-se sempre a um teto.
      Sabe, pensei que em Portugal o ensino estava mais interessantes, mas pelo seu comentário penso estar próximo ao modelo do Brasil.
      Mas vale destacar que há excelentes profissionais buscando lançar sementes para que isso mude.
      Abraços!

      Excluir
  10. Olá, querida amiga Vane!
    Gosto tanto daqui e senti saudade. Agora que estou mais calma assentada no novo Estado, posso ler com calma e tirar proveito...
    Também não quero mais nada com algo regular, assim digamos, desde que me aposentei... prefiro ser voluntária e doar meu tempo com amor e de acordo com minhas preferências... é tão bom poder se fazer coisas fora dos padrões normais... desde que sejam sadias...
    Gosto desse seu estilo de vida e assim procuro viver, fico muto light... rs...
    Seja muito feliz e abençoada junto aos seus amados!
    Bjm de paz e bem

    ResponderExcluir
  11. Olá, Rosélia!
    Então mudou de Estado? Desejo muitas alegrias no novo local de moradia!
    Faz bem em dedicar-se ao que gosta na aposentadoria, ao que parece tem bastante saúde para aproveitar a vida e ainda retribui a dádiva sendo generosa fazendo o bem.
    Penso que doar o tempo com amor nunca é tempo perdido! E viver assim é sempre uma opção light!Tenho procurado focar em projetos que ajudem as pessoas a serem mais leves, tudo feito com muito amor.
    Espero que você também seja muito feliz e abençoada com seus amados. Estou sempre perto das pessoas que amo, seja em presença ou em coração. :)
    Abraços!

    ResponderExcluir
  12. Muito à-vontade, expressividade e convicção na sua explanação.
    Sou professora, tb, mas de alunos pré-universitários, onde os vícios estão já enraizados.
    O ensino, mundialmente falando, está péssimo (evidente k temos bons professores e alunos), mas acho que tu é(s) uma pouquinho "sonhadora". Se renunciaste a um salário, certinho, é pke cá fora e por ti própria consegues estar e te sentires bem, a mtos níveis e no financeiro também.

    Acho que o importante é haver regras, não espartilhos, mas regras onde se saiba quem ensina e quem aprende. Sou professora por paixão e não trocaria minha profissão por nenhuma outra e olha que tinha a Psicologia, bem à mão de semear.

    Beijos e tudo de bom pra você e sua filha. Ela já casou? E o romance, o seu romance, continua de "vento em popa" (rs)? Só responderá, se pretender.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Céu, tem razão. Inclusive esse espaço revela bastante da minha espontaneidade!
      Interessante saber que é professora de pré-universitários, uma faixa etária bem diferenciada.
      Esses dias conversávamos na sala das professoras sobre o concurso, e sobre a tensão das professoras que participaram do teste acerca do resultado - tensão essa, pelo qual não passo, devido às minhas escolhas. Falava-se de que um dos principais motivadores era o salário certinho, como mencionou.
      Com certeza, renunciar a isso começa no sonho... e continua num longo processo bem racional de objetivos a alcançar, planos, muito estudo e aprimoramento, empenho, disciplina, trabalho muitas vezes nos feriados e férias... o que garanto, assegura um rendimento maior que o fixo a médio prazo, se houver toda essa estrutura, muita responsabilidade pessoal, amor e energia colocada no processo. Conquistei bem mais conforto e lazer depois de ter abraçado essa escolha.
      Por outro lado, admiro muito quem é professor(a) por paixão, como você, pois estes sim são capazes de causar impactos positivos na vida dos seus alunos sem que o objetivo principal seja o rendimento.
      A filha casou sim, há duas semanas, uma festa muito alegre e agradável. Eu continuo amando os mesmos olhos morenos, e mesmo estando longe em presença física, todo o meu "eu" é dele. <3
      Grande abraço, beijo!

      Excluir

Gosto de conhecer pontos de vista. Não deixe de expressar o seu! Farei o possível para responder.
Obs: a moderação está ativada.