sábado, 1 de dezembro de 2018

Sistema eficiente de proteção


Chegamos em dezembro. Apesar do clima que mistura festividade e altas doses de stress, o Natal perdeu um pouco o entusiasmo e o significado para mim há algum tempo, o que não significa que o mês não possa ser bom como na verdade, todos os meses devem ser. É isso! É só uma marcação no tempo, e todo o tempo deve ser bom.

Novembro foi um mês especialmente difícil para mim, daquele pelo qual pensei que nunca mais iria passar, ainda mais vindo de uma fase muito alegre e satisfatória. Tirando um campo da vida, os outros estavam indo muito bem, mas a percepção sobre os arquétipos aliada à questões de ausência na infância percebidas há seis meses e à partida da filha para outra cidade daqui a dois meses, trouxe algo à tona muito bem soterrado na sombra, o que foi devastador para a saúde. E então, foi preciso buscar todos os recursos para recuperar o que momentaneamente foi perdido.

Fiquei paralisada, sem conseguir dar andamento a quase nada, como se tivessem tirado completamente meu chão, o que me causou um grande pavor, o qual o próprio pavor causou ainda mais danos. Foi preciso recorrer a médicos tradicionais, terapias naturais e psicóloga para compreender o que estava acontecendo e buscar caminhos para a resolução.

Finalmente, cheguei no ponto no qual estou me restabelecendo e a conclusões importantes sobre o que tudo isso quer mostrar. Lembrei-me em todo o processo de que tudo na vida ou é uma bênção, ou uma lição, e que quando uma sombra vem à tona, é porque temos condições de resolvê-la naquele momento.

Após o efeito das terapias naturais - escolhidas para desbloqueio de sentimentos - e de três sessões com a psicóloga, chegamos a conclusões muito importantes. Não foi a ausência do pai o ponto determinante, mas a sensação se ausência de proteção que permeou a infância, e não porque meus pais não me protegeram, mas porque talvez não compreenderam como fazer isso da forma como emiti necessidade. A meu ver, essas questões já foram compreendidas e perdoadas, mas o caminho entre o consciente e o inconsciente é um pouco mais complicado. Na verdade, a minha "unipili" - criança interior - parece ainda viver das memórias de desproteção, que foram várias tanto em relação à segurança quanto às características pessoais, e é nesse sentido que o trabalho será realizado agora.

Isso explica muitos pontos da minha vida:

  • o motivo pelo qual meu sistema de defesa sempre foi tão eficiente, o que sempre causou a impressão de arrogância,  afastou a possibilidade de conhecer pessoas ou ser convidada para dançar ou conversar com um estranho;
  • explica os problemas sucessivos na musculatura, a tensão nos ombros, a rigidez nas articulações, claro... desenvolvi literalmente uma "couraça" para me proteger, que funciona inclusive dormindo;
  • explica o meu envolvimento no passado, em momentos de perda/dor,  com pessoas que não amava e me levaram a submeter totalmente a estima em troca de segurança;
  • mostra porque sempre me feriu tanto quando a proteção me foi tirada ou negada em detrimento de outra pessoa, em falas como "ele é fraco inseguro, você sabe se virar", "ela chora com a ideia da minha ausência", "você tem que ir comigo porque é forte", "ela é só uma criança, você tem que aceitar". A imagem de força que passo certamente esconde uma fragilidade muito maior do que a dessas outras pessoas, eu só aprendi a disfarçar isso muito bem, rsrsrsr;
  • explica porquê eu me preocupo tanto em proteger as pessoas que eu amo e evitar meios de mágoa e manipulação. Há dois tipos de pessoas: as que não dão aquilo que não tiveram, e as que dão exatamente o que não tiveram, e eu estou nesta categoria. Se me dão proteção, protejo em dobro; se me dão amor, eu amo em dobro; se me dão gratidão, cuidado e reconhecimento, eu dou em dobro, se não me dão, eu dou mesmo assim;
  • explica porquê sempre abro mão de algumas coisas muito importantes só para não desproteger as pessoas que eu amo;
  • porquê, apesar de não ter contato (e nem querer, kkkk), não tenho mágoas do pai da minha filha, que apesar de nunca ter ajudado, me protegeu em um momento pontual da vida;
  • o motivo pelo qual, após sentir a proteção do meu amor há dois anos, fase muito difícil da vida, eu passei a amá-lo ainda mais e mais, como se isso fosse possível;
  • porquê sou capaz facilmente de modificar minha rotina só para evitar enfrentar situações nos quais possa me sentir desprotegida da dor;
  • o motivo pelo qual por tanto tempo, me escondi atrás de pseudônimos;
  • porquê me cobro tanto para ser perfeita no que faço só para não correr o risco de ser atacada;
  • condiz inclusive com o arquétipo da rainha: faço tudo pelo meu reino, desde de que me sinta bem protegida. 
Explica inclusive porquê raramente minhas relações de amizade vão muito a fundo - há sempre algo a proteger, mesmo que seja a dor do afastamento. Há somente duas pessoas no mundo para os quais meu sistema de defesa foi completamente aberto: para minha filha e para o homem que eu amo. Minha filha irá embora - o que é um fato e é saudável que seja assim- e o meu amor não está por perto, e então, percebo que será preciso um eficiente trabalho interior para que isso não seja interpretado com uma mensagem de que meu sistema de defesa precisa ser dobrado para não passar por nova dor dessas perdas - o que também compreendi que por proteção, sempre escondo deles e até de mim mesma, o tamanho da dor que sinto - ou que isso não vire uma autorrejeição.

Se tudo isso veio à tona, transmutar significa mudar os pontos de vista e as limitações, ou seja, me proteger, mas também aceitar que posso me permitir ser protegida. Talvez o próprio fato de que hoje eu busco vencer o sistema de defesa me expondo em vídeos e redes sociais tenha sido um desencadeador de tudo isso. O interessante é que mesmo exposta, as pessoas mantém um respeito ímpar à minha pessoa - é curioso como o sistema de defesa funciona invisivelmente, é uma questão de postura, de atitude. É uma boa habilidade, mas parece que meus limites tem sido um pouco rígidos demais.

O desafio de reconstrução é, a partir de agora, compreender como manter um nível de proteção saudável, que me permita confiar e interagir sem no entanto, desenvolver relacionamentos em qualquer esfera que não sejam saudáveis, nos quais eu me sinta segura e me permita aceitar ajuda e proteção, sem submeter a estima para isso. No fundo eu entendi que só preciso estar com pessoas com as quais eu sinta sinceramente que possa contar, e com certeza, elas terão o mesmo de mim sempre, e absorver mais do que nunca a noção de que Deus sempre está cuidando de mim. 

Não quero que esse post encerre-se de uma forma triste. kkkkkk! Estou me recuperando e tenho certeza de que essas constatações me levarão em um ponto ainda melhor de onde estou, no qual sei qual valor é importante na minha vida e nas relações que tenho ou terei: proteção, de uma forma saudável, sem reprimir a parte que sofreu tanto interiormente por todos esses anos. E eu compreendi a força da sombra (inconsciente) e a importância de ao invés de reprimir, liberá-la. Não se pode fugir daquilo que vive dentro da gente!

10 comentários:

  1. Vane, te entendo muito bem! Temos embnós mecanismos de proteção para parece nos livrar de males maiores. Mas mesmo assim, não podemos deixar de viver nossos "lutos e perdas" sejam como forem. Há tantas perdas que nem imaginas e com elas convivemos. É da vida! Quando um filho sai de casa e vai pra longe, sentimos uma dor enorme, imensa ...Parece nossa vida vai acabar. Depois, tudo se acomoda, chegam as visitas pra eles, ou deles e tudo vai se ajeitando. E ainda há a modernidade com toda tecnologia. Essa semana mesmo tive prova disso. Chorei, fiquei rouca de tão nervosa e engasgada, assistindo ao vivo, nosso neto que está na Escócia, em sua formatura no Mestrado. Foi doloroso e magnífico ao mesmo tempo. Por isso, vai firme na peruca. Nem precisa muito tratamento. As coisas se ajeita! Vais ver! Força! bjs, chica

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    1. Olá, Chica! Sim, talvez eu não imaginasse quantas perdas haveriam pelo caminho, algumas são realmente difíceis de aprender a lidar.
      Ter realmente me aberto somente para duas pessoas tão amadas até hoje e ficar sem ambos traz essa sensação de plena desproteção, está sendo trabalhoso reinventar esses limites interiores para encontrar outros meios de proteção - é como nascer de novo.
      Li seu depoimento e me emocionei imaginando sua emoção tão dúbia, a alegria de acompanhar online, sem a alegria da presença... Tem razão, hoje temos a facilidade da tecnologia, que ajuda a aliviar a distância. Obrigada pela força e incentivo, tenho trabalhado internamente pois quero que ela vá feliz e sem culpa. Minha psicóloga até sugeriu que eu adotasse uma criança, dizendo "você gosta tanto de dar amor e cuidar de alguém, seria um meio", rsrsrsrs.... mas agora ter um filho me parece distante. O plano futuro é aproveitar melhor a vida em passeios e viagens, o que não aconteceu na medida em que eu gostaria. Como disse, "as coisas se ajeita", rsrsrs. Grande abraço, tuuudo de bom!

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  2. A nossa infância revela-se nas atitudes do dia a dia.
    Que este mês de dezembro lhe traga muita felicidade!
    Bjs

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    1. Olá, Elisabete, tem razão, a infância se apresenta de forma muito sutil, subjetiva e marcante. "Que este mês de dezembro lhe traga muita felicidade!" Amém!!!! Abraços!

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  3. Oi Vane,
    Sumiu do meu blog.
    Estou doente, mas persisto no blog, minha única distração
    Desejo a você uma vida cheia de anseios e felicidades.
    Abraços
    Lua Singular

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    1. Oi, Lua, como vai? Não é do seu, não, estou sumida de todos os blogs, rsrsrrs. Esse ano infelizmente não consegui conciliar o trabalho com as visitas, se perceber, também tenho postado bem pouco, mas ainda persisto, rsrsrs.
      Desejo muito sua recuperação e agradeço os votos cheios de alegria. Abraços!

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  4. Lamento profundamente o seu estado de saúde. O inconsciente é como o tempo. Sempre que fica sobrecarregado o espaço acontecem tempestades, trovoadas etc. Quando o nosso inconsciente está assim qualquer coisa pode despoletar a depressão ou qualquer outra doença. Fez muito bem ter procurado ajuda.
    Espero e desejo que vença essa crise em breve, e recupere a saúde.
    Abraço

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    1. Olá, Elvira, muito bem definido - "sempre que fica sobrecarregado o espaço acontecem tempestades, trovoadas". Trabalhei para tirar as travas do inconsciente e não imaginei que o que estava guardado tinha assim, tanta força. O inconsciente explorado revela traumas da infância, aspectos nossos que rejeitamos e o que estamos vivendo ocultamente - como o ortopedista que disse hoje que minha dolorosa rigidez muscular nos ombros era falta de um marido, kkkkkkk!
      Sim, procurar ajuda é fundamental, já tive depressão no passado e sei como é silenciosa e devastadora. Eu tive ajuda médica, psicológica e holística e todas estão me ajudando a melhorar.
      Muito obrigada pelo carinho e apoio! Grande abraço!

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