domingo, 5 de maio de 2019

Só para os fortes

Obs: o conteúdo é edificante, porém pesado e longo. Sugiro que não leia se estiver sensível ou disposto a textos mais leves.

Desde ontem acordei diferente, mas de uma forma boa, como se algo que se perdeu de mim há alguns meses (e paralelamente, há muitos anos) estivesse retornando.



Há algumas semanas conheci alguém que me fez pensar por quê me afastei do hábito de ouvir músicas populares, especialmente as que mais gosto, baladas e pagode. Encontrei os canais musicais na tv paga e tenho escutado músicas especialmente pela manhã. Entendi que elas tocam numa das partes mais importantes da minha história - o amor da minha vida - e portanto, tocam muito fundo em mim. Com os estudos associei a busca por uma alta vibração com a ausência de lágrimas, mas talvez tenha sido um erro.


Lágrimas não significam sempre tristeza, e sim uma expressão da emoção, que pode ser positiva ou não. O amor é o sentimento mais digno de acolhimento. No livro "Zen para distraídos", Monja Cohen fala sobre um monge que chora por tudo, de alegria, é sua forma de expressão. Eu também choro de alegria, de observar algo bonito, apreciar a natureza, de lembrar bons momentos. Então, está ok se eu quiser chorar ouvindo uma música, desde que eu não mergulhe em tristeza. Tem sido bom ouvir músicas, sobretudo as que eu tocava nos tempos da rádio. Um estudo diz que as músicas que ouvimos entre os 17 e 25 anos tem o poder de despertar os melhores sentimentos dentro da gente, o que é inclusive utilizado terapeuticamente com paciente com Alzheimer.

Por outro lado, essa mesma pessoa, por motivos que desconheço - certamente, porque a vida tornou necessário - disparou um gatilho* completamente suprimido em meu inconsciente, algo extremamente doloroso que me assustou tanto - porque a princípio, não entendi do que se tratava - a ponto de eu me afastar do amigo, que coitado, não fez, nada, rsrsrs. Ou, teve esse papel importantíssimo a qual serei eternamente grata. Retomarei esse tópico adiante.

Como já foi colocado em outros posts, estive muito doente no final do ano, não me lembro de ter tido tantos problemas ao mesmo tempo até hoje, o que disparou um grande desequilíbrio emocional. Hoje, ainda convivo com o problema no ombro e trapézio esquerdo (impactando no lado esquerdo da garganta), que ainda não se estabilizou e limita muito especialmente meu uso do computador. Estou usando todos os recursos para melhorar isso. Depois de me debater muito com a obrigatoriedade de reduzir o trabalho, compreendi que era um sinal urgente pra parar, olhar para dentro de mim e deixar que o que fosse necessário, viesse à tona. Período riquíssimo em estudos, autoconhecimento e autoamor.

Sei que a origem dos problemas está sempre no campo energético. Quando uma doença "sobe" para o corpo físico é porque está instalada no inconsciente há muito tempo. O inconsciente/energia é a causa, a manifestação física é a consequência. Bom, problemas na região citada referem-se a culpa, dificuldades para mudar o padrão, sobrecarga e guardar algo que deveria ser expressado. Na mulher, se a manifestação é do lado esquerdo, o problema refere-se a um homem que exerce(u) poder sobre ela.

Com a ajuda da psicóloga, começamos a investigar sobre esses relacionamentos importante para mim, especialmente referente à ausência do pai (conforme falado anteriormente em outro post) e alguns aspectos do relacionamento com o homem que eu amo.

Até que o tal gatilho foi disparado e, do nada, veio à tona a memória emocional de um abuso - não muito invasivo fisicamente, mas extremamente invasivo emocionalmente - que sofri na infância, antes dos 10 anos de idade. Esse fato nunca foi esquecido na minha memória, mas eu acreditava que havia superado, até porque tal pessoa fazia algo de bom para uma outra pessoa que eu amava. Não identifiquei sequelas sexuais na minha vida adulta e além do mais, não queria criar um desequilíbrio familiar. Tentei contar uma vez mas não houve receptividade. Hoje entendo que a suposta ouvinte não tinha (e não tem) maturidade para lidar com uma situação como essa.

Pois, bem, uma vez essa questão revelada, os sentimentos suprimidos começaram a emergir. Na visão de uma criança, ela provocou a situação. Como o pai, embora muito amoroso, se ausentava e a mãe não era afeita a carinho, minha criança aceitou o carinho de outra pessoa, e essa aceitação leva à culpa. Claro que enquanto criança, havia plena confiança no adulto e jamais a ideia de que essa aceitação evoluiria para um abuso, o qual minha inocência nem sabia o que era. Minha personalidade (e educação) era muito feminina, inocente e delicada. Portanto, o primeiro sentimento que veio foi a culpa. Vieram vergonha, repulsa, raiva do outro, raiva de si mesmo, confiança quebrada, rejeição, auto rejeição, medo, desproteção, não merecimento, indignidade. Tenho buscado trabalhar tudo em mim e nas sessões terapêuticas isso será trabalhado aos poucos, por recomendação da psicóloga, por ser algo de grande porte.

Por outro lado, essa revelação trouxe a respostas para muitas questões:

  • O desejo de querer ser adulta logo, pois a infância foi quebrada;
  • O fato de que não me achava bonita e/ou que não via beleza como uma vantagem;
  • As crises de revolta em casa na adolescência (pela expressão do fato reprimida);
  • Vestir e viver por anos sob o arquétipo da serviçal, por autopunição;
  • A sensação exacerbada de desproteção no falecimento na minha tia;
  • A necessidade de me proteger e proteger as pessoas que eu amo, mesmo que eu saia perdendo nisso;
  • A rigidez muscular;
  • O ritmo intenso de trabalho a vida inteira para evitar olhar para dentro; 
  • A resistência em aceitar bons presentes e condições por receio inconsciente do que seria dado em troca;
  • Por quê tive os casamentos que tive;
  • Os inúmeros episódios de autossabotagem nos meus relacionamentos, especialmente em relação ao homem que eu amo, especialmente pela memória inconsciente de culpa e não-merecimento. Essa, a parte mais dolorosa para mim. Agora, quando lembro de situações do passado em que me magoei nesse sentido, entendi que criei inconscientemente essas situações para me punir, e novas perspectivas estão nascendo a partir disso. Ele nunca me forçou a nada - o que o fez ter tudo de mim - e certamente é um dos motivos pelo qual o amor permanece.
  • A doença e a crise de ansiedade foram meios que o ego encontrou para me proteger da revelação dessas dores guardadas.
Por outro lado, consigo ver o outro lado da moeda, o que me traz muitos motivos para me amar. Mesmo com o histórico deste episódio, não me tornei uma pessoa amarga, vingativa, desconfiada, punitiva ou fria. Não transferi minha revolta para os companheiros que tive, humilhando ou dominando. As minhas escolhas tem sido sempre em direção ao bem, ao amor, à justiça, ao perdão, à não-vitimização. Não me tornei uma mãe superprotetora, embora tenha tido ações cautelosas com ela em relação à essa pessoa. Então hoje eu realmente acho que sou digna de amor e de merecimento.

Minha psicóloga sugeriu que eu escrevesse sobre isso e a princípio, neguei ("o blog está praticamente inativo", argumentei). Mas depois entendi que a negação leva ao tabu, além de ser uma resistência a permitir que isso seja finalmente elaborado e liberado, por esse motivo estou escrevendo. Não tenho motivos para ter vergonha porque consegui fazer o melhor com o que me aconteceu. Os abusos e os estupros estão marcados na história do inconsciente coletivo - basta analisar as histórias sobre guerras - e quanto mais pudermos liberar essas memórias, tanto melhor estaremos colaborando para melhorar a qualidade da história coletiva. Assim como se, algum leitor/a chegar até esse texto com experiência parecida - você não tem culpa do que aconteceu. Busque um meio de tratar isso e ficará livre.

Apesar de tudo sou grata por isso estar sendo liberado do meu inconsciente, permitindo que eu possa reavaliar a minha história e construir relações sem os ruídos danosos dos sentimentos sabotadores. Sei que liberar os traumas do inconsciente é primordial para viver uma vida plena e feliz. A parte mais difícil será aprender a olhar a pessoa com compaixão, mas com certeza, no patamar de conhecimento que estou, sei que isso é fundamental e possível. A nível quântico todos estamos interligados e quando sustento o não-perdão em relação ao outro, estou sustentando o não-perdão em relação à mim mesma. 

Sei também que com a dissolução dessa história os problemas físicos tendem a se diluir. Enquanto isso alimento a alma com estudo, arte, música e saudade de uma história que está sendo reescrita pelos padrões coerentes com a Vanessa que nasci pra ser - amorosa, carinhosa, alegre e fonte de paz. 


Imagem de Marko Lovric por Pixabay

*Gatilhos: palavra, gesto, expressão facial, atitude, que dispara uma memória do inconsciente, que pode ser boa ou não.

14 comentários:

  1. Não li. Fui operada aos olhos correu mal, estou com dificuldade de ler textos longos.
    Um abraço e bom Domingo

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    1. Olá Elvira, espero que seja possível melhorar a condição de seus olhos. Grande abraço!

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  2. Puxa,Vane! Li com atenção e percebi o quanto algo te machucava e que bom, conseguiste "vomitar", jogar pra fora de ti tudo isso. Esse perdão,acredito que não é de uma hora para outra que chega ao coração. Na língua ele chega, mas deve vir de DENTRO pra eficaz ser! Adorei ver que estás no caminho certo pra tudo superar e tu és forte, és brava! Vai em frente ,segue firme na paçoca!!! beijos, tudo de bom,chica

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    1. Olá Chica, sempre bom ler seus pontos de vista. O perigo do que fica guardado é que não sabemos seu tamanho até que venha à tona, mesmo parecendo resolvido. Estou em frente, obrigada pelo incentivo, mesmo quando em alguns momentos tudo que eu queria era só ficar horas em silêncio em um abraço. O importante é que está sendo resolvido. Grande abraço!

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  3. Lamento a situação do abuso, sendo você tão nova. Fez bem em desabafar. Minha querida Vane, a vida continua, é bom honrar o tempo presente. Não teve culpa de nada. Desejo-lhe muita força!!! Coragem, está no bom caminho!!!!
    Um beijo grande

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    1. Olá Elisabete! Sim, a vida acontece no presente, embora tenha compreendido que ignorar o passado é como tapar o sol com a peneira. É preciso aprender a conviver com o sol sem se queimar, digamos assim, e não, ignora-lo. Estou aprendendo! Todos temos experiências dolorosas às quais precisamos transformar em luz, não é mesmo? Obrigada pelo carinho, grande abraço!

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  4. Chegando por aqui e lendo essa beleza de escrita.
    Temos muita coisa escondida na mente, que precisamos desembrulhar e ver.
    Muito feliz de saber que você consegui "jogar no blog" esses seus sentimentos. Foi muito bom para você. Caminho certo: psicóloga. Entendemos tanta coisa! E ficamos muito mais receptiva e feliz. Parabéns!
    Beijos.
    blogjoturquezzamundial

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    1. Boa noite Jô! Desembrulhar é um termo muito interessante para descrever o que é preciso fazer com a mente. Pode ser um processo difícil, doloroso, mas fundamental. Quanto antes, menor o sofrimento gerado e velado. Ter um acompanhamento psicológico é importante para que o peofissional nos ajude a trazer à tona o que não vemos, mas só vem à tona se estamos dispostos e preparados para lidar com o conteúdo que rejeitamos em nós. Grande abraço!

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  5. Lágrimas nem sempre significam tristeza, muitas vezes é emoção. Certíssimo.
    O desejo de sermos adultos quando somos crianças e depois o desejo de sermos crianças quando somos adultos.
    Abraço

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    1. Expressar emoções é muito mais saudável do que reprimí-las, mas somos ensinados de que expressar é motivo de vergonha. Imagina! Tremenda crença limitante! Eu continuo querendo ser adulta, mas com novas perspectivas sobre a infância. Abraço!

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  6. Boa noite de Domingo, querida amiga Vane!
    "Nasci pra ser - amorosa, carinhosa, alegre e fonte de paz."
    Muito lindo ter esta consciência amorosa de si!
    Gosto muito de vir aqui e que bom está aberto a comentários! Só percebi agora.
    Tenha uma semana cheia de Amor!
    Bjm carinhoso e fraterno de paz e bem

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    1. Boa noite, Roselia, como vai? Tenho compreensão atualmente do quanto essa consciência amorosa não só é necessária como natural de cada um. A questão é quantas camadas precisamos retirar para eu essa possa emergir plenamente. Abraços!

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