domingo, 9 de junho de 2019

No ventre da mãe

Qual era seu grau de consciência na barriga da sua mãe?

Nessa busca atual por compreender o desenrolar da minha história, iniciei há duas semanas um curso que penetra um pouco mais fundo no inconsciente.



De acordo com a professora - uma profissional que admiro muito por seu conhecimento - nossa história começa a ser escrita a partir das interpretações que damos ao relacionamento dos pais no ventre da barriga da mãe, e esta interpretação influencia toda a nossa vida, a menos que possamos modificar esse padrão estabelecido.


Como observadores, capturamos os sentimentos de ambos - especialmente da mãe - e interpretamos com a consciência de um bebê que nem nasceu. Ora, que grau de conhecimento tem um bebê no ventre, a não ser sua remota herança antepassada? Daí nascem os grandes equívocos: carregamos as distorções dessa consciência mínima para o resto da vida. Dessas interpretações, o bebê toma o partido do pai ou da mãe - achando que um dos dois é injustiçado ou "bonzinho" - e rejeita o outro, a causa de todo o problema por alguns motivos:

- Somos o produto da energia de duas pessoas que querendo ou não, permitiram que viéssemos ao mundo. Rejeitar um dos dois, em uma última instância, é rejeitar a si mesmo.

- Com a pouca consciência que gerou essas interpretações a chance de sermos injustos é quase certa, pois todos têm aspectos bons também.

- Quando rejeitamos um dos dois inconscientemente, não rejeitamos somente o que consideramos inadequado, rejeitamos também suas qualidades, o que pode ser justamente o que falta em nossa vida.

- Essa rejeição nos faz agir igual ao alvo da rejeição (inconscientemente) ou seu oposto em desequilíbrio, uma vez que nos falta as qualidades importantes que rejeitamos.

Na experiência sugerida através de uma meditação guiada para "voltar" ao ventre da mãe, minha percepção - que pode ou não ter acontecido no ventre, mas que de qualquer forma, o inconsciente trouxe à tona como relevante - senti imediato desconforto ao "entrar" no ventre, uma vontade de sair dali. Permaneci em frente, pois queria encontrar uma resposta, e senti fortemente na mãe medo e raiva por essa gravidez. No pai, senti o amor e o acolhimento, mas a culpa por conta de não estar agradando à esposa. Minha primeira constatação foi a de que faço de tudo para não me sentir um ponto de conflito entre as pessoas, em qualquer ambiente ou grau de relacionamento, como me senti nessa ocasião, e trouxe à memória de coisas tão importantes às quais abri mão, o quanto já perdi e sufoquei minha opinião por conta disso, do quanto me sabotei.

Obviamente, essa lembrança do inconsciente justifica por quê me tornei parecida com o pai e o oposto em desequilíbrio da minha mãe, mas através dos estudos estou compreendendo que a percepção de um embrião é muito limitada. O que gerou a sensação de rejeição por parte da mãe - e por consequência, de culpa em mim por ter gerado essa sensação - partiu de um bebê que não tinha como avaliar o contexto. Minha mãe tinha gravidez difícil - até perdeu o primeiro bebê - e problemas com anestesia que provocavam choque anafilático, então seu medo era plenamente justificável, mas o embrião não tinha maturidade para desenvolver essa conclusão mais equilibrada e justa.

Tendemos a querer "ocupar o lugar" daquele que consideramos "injustiçado" ou "bonzinho" por considerar que essa pessoa não tem condições de defender sua felicidade ou espaço sozinha, e acabamos nos colocando entre os dois no relacionamento, sem querer, resolvendo questões que deveriam ser resolvidas entre os dois, tomando partido de um e acusando o outro, e assim por diante. Esquecemos que eles são/eram nossos pais, adultos, que escolheram estar neste relacionamento, e que nosso papel como filho é ser... filho.

Passamos a vida vivendo papéis distorcidos e relacionamentos que justifiquem esses papéis porque estamos vivendo algo que não corresponde ao nosso eu de verdade. Justifica as profissões que tivemos, as nossas amizades, nosso grau de entrosamento ou isolamento, nossas interpretações sobre o mundo e as pessoas. Os relacionamentos espelham tanto o que rejeitamos ou seu oposto em desequilíbrio.  Bingo!

O curso ainda vai longe, mas aos poucos as percepções vão clareando. Que tremenda arrogância a nossa, como bebês, acreditar que somos capazes de julgar os comportamentos dos nossos pais e traçar a vida a partir disso! A própria infância e a adolescência justificam essas ideias primárias, pois já são construídas sobre essas crenças. A questão não é o que aconteceu na gravidez ou mesmo na história dos nossos pais, mas a interpretação que demos com a pouca consciência que tínhamos.

Criamos inúmeros episódios inconscientes a partir desses julgamentos, como crenças equivocadas, perdas, abusos, escolhas erradas, temos a sensação de que fazemos tudo certo e ainda assim, as coisas não saem como esperamos. É claro, estamos vivendo a vida com a percepção primária de um bebê no útero, tomando partido ou rejeitando nossos pais, sem questionar a origem disso em nenhum momento! Não vivemos a vida que nascemos para viver a partir de quem somos realmente - o serzinho que existiu antes de dar a primeira interpretação.

Um exercício interessante, que qualquer um pode fazer é organizar uma folha com quatro colunas. Nas duas primeiras colunas colocamos, com honestidade e sem culpa, os aspectos que "negamos" ou "pegamos" na nossa mãe, e depois, o mesmo em relação ao nosso pai. Isso inclui os aspectos considerados bons ou não. Depois, grifamos os aspectos que consideramos negativos. Analisando o panorama geral acerca de nossos pais, fica evidente o que espelhamos (ou não) e o quanto isso interfere em nossa vida.

Nesse exercício, ficou claro para mim quais aspectos que acabei negando em minha mãe, que eram positivos e que hoje me fazem falta,e os aspectos negativos do pai que absorvi. Essa compreensão é um dos caminhos para alinhar a vida com a energia integrada de ambos, de uma maneira saudável, e elucida o que fazemos que não faz parte do nosso eu, e sim que espelha atitudes daquele que  tomamos uma parte porque consideramos injustiçado. Com esse conhecimento,  podemos alimentar as qualidades que sem querer rejeitamos, mas que fazem parte do eu, e suavizar as que "pegamos" e que não nos favorecem.

Outro ponto importante é reconhecer esses equívocos e honrar/amar/aceitar nossos pais igualmente, sem culpa, pois se estamos aqui é um produto de ambos. Apenas precisamos aprender a voltar ao nosso papel de filho e a construir a nossa própria história, sem projeções, julgamentos ou rejeições.

O mais curioso é que, por mais que meus pontos de vista se aprofundem e mudem, eu continuo amando muito o mesmo homem - amor genuíno, profundo e raro - mas tenho pistas das respostas para uma questão que tem me tomado: se evoluí tanto positivamente em quase todos os sentidos, por que estou sozinha há tanto tempo?

Acredito que com esses estudos chegarei a pontos importantes em vários aspectos e quis compartilhar esse conhecimento para que talvez ajude outras pessoas a ponderarem sobre sua própria história, e a compreenderem por que às vezes temos a sensação de que não estamos vivendo aquilo que nascemos para viver.

4 comentários:

  1. Vane, que lindo texto e tuas inquietações e questionamento e, provocam ótimas reflexões. Esse tema é maravilhoso, interessa sempre e creio teu curso será um sucesso.É o que desejo! Adorei! beijos, chica

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    1. Olá Chica! Estou empenhada nos estudos, provocadores, mexem com o que está profundo, o que sempre dá vontade de desistir, hahaha. Só mais uma resistência do ego a ser vencida. Estou depositando toda minha confiança nesse curso e seu comentário é encorajador. Abraço imenso!

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  2. Um texto muito interessante Vane. Sabemos tão pouco do que somos antes de nascer.
    Abraço e uma boa semana

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    1. Tem razão Elvira, viemos ao mundo para aprender e nascemos achamos que somos donos da verdade e mais espertos que nossos pais, hahaha.Grande Abraço!

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